domingo, 30 de novembro de 2008

A pata do Salomão

Do outro lado do oceano, com quase quatro vezes meu tempo de existência, vem ao palco aquele cujas palavras conheço bem, mas a voz nunca tinha ouvido (e nem imaginava um dia fazê-lo). Com passos firmes, mesmo que fracos, caminha até a cadeira e senta-se. Tudo isso foi observado por trás de lágrimas.

Ele falou, e fala como escreve. Ao final, uma fila me aguardava, mas além dela, uma surpresa: o décimo terceiro autógrafo foi meu. Eu olhei dentro de seus olhos quando ele me entregou o livro assinado. Pude balbuciar um obrigada, que não dizia respeito apenas àquele breve movimento da caneta, àquelas duas palavras. Era muito mais do que seu nome em meu livro que eu agradecia. Eram todas as outras palavras, era tudo o que pude viver, sentir e conhecer por suas obras.

Estava satisfeita, mas não totalmente. Em um lado do saguão, sua esposa, seu pilar. E repórteres. Esperei, reuni toda coragem, respirei e levantei-me. Andei até ela, pedi para falar-lhe. Disse que tinha escrito algo que queria entregar a ele. Ela disse-me que entregasse a ela, eu o fiz. Ela me agradeceu (a mim??), abracei-a, disse o prazer que foi conhecê-los, sai.

Uma última olhada para ela, grande espanhola, grande esposa. Ela não o deixou morrer.

Última olhada para ele, ainda dando conta dos 150 autógrafos, grande homem, grande e imortal.

Despedi-me. Fomos embora. Naquela noite, cada minuto foi mais do que pôde tentar prever minha imaginação. Conheci José Saramago.




Devo um agradecimento a mais alguém, o responsável pelo sétimo ingresso e pelo décimo terceiro autógrafo, pela ida e pela reviravolta, pelo inusitado e por tudo o que está por vir.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

No seu dia

Eu nunca sonhei com você
Nunca fui ao cinema.
Não gosto de samba, não vou a Ipanema.
Não gosto de chuva, nem gosto de sol.

Sempre gostei de você, de sua alegria,
Às vezes azul, às vezes macia,
Mas seu sorriso sempre presente
Como um raio de sol.

Gosto de cantar e dançar com você comigo
Para me dar coragem, embalar meu vestido
E quando a festa acaba, ir para casa sorrindo.

Mas nem sempre é assim, há momentos tristonhos,
As lágrimas compartilhadas, os medos medonhos,
As dores de amor e de crescer que guardamos.

Com você, até a tristeza fica colorida,
Seu rosado me anima, me faz crer na vida,
E sentir que ao meu lado está minha maior amiga,
A que a vida me deu e que não largo nem num trem de partida.

Pois você guarda em si o melhor pedaço de mim,
Meu coração e minhas memórias queridas
De quando o sol era mais vivo, e as noites menos sentidas.

E por você faço samba, misturo o Tom,
Em minha garganta a Poesia e o Som
São os que vêm não só de mim
Mas também do grande Jobim.

Por você, Ligia.