segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

I wear this crown of thorns

Há pessoas que em momentos inesperados têm epifanias. Algumas, ao ver um cego mascando chicletes, outras, como eu, durante um sonho. Tive um sonho terrível noite passada, havia voltado à terrível Idade Média e presenciava um homem sendo enjaulado e torturado, havia ferros cravados em sua pele e ele gritava, urrava de dor. Isso acontecia, estranhamente, na sala da casa de meu pai e, enquanto minha irmã assitia à televisão, eu observava aquele homem e seu carrasco.

O homem tinha uma jaula montada em si mesmo, as grades lhe prendiam os membros por ganchos, espinhos, agulhas e pregos, havia muito sangue. Houve um momento em que ele caiu. Alucinado e já não suportando a dor, perdeu o senso. Tentava, com os dentes, arrancar os espinhos de dentro da carne, arrastava-se pelo chão gritando que não aguentava mais.

Eu, neste momento, pulei por cima dele, que bloqueava o caminho, e precisei me afastar de toda aquela dor. Comecei a descer as escadas e, quando olhei para meus pés pisando os degraus, notei que eu também tinha uma jaula em mim, mas que, ao pular o homem, o prego de meu pé esquerdo havia saído. Eu estava quase livre.

Minha ação seguinte foi a que me levou à epifania, tamanho absurdo.

Então eu descia a escada, no final dela havia um carrasco, não vi seu rosto. Minha reação foi talvez guiada pelo medo, foi o único momento ao longo do sonho em que senti medo. Eu chamei o carrasco e avisei-o, disse que meus pés estavam soltos. Eu não quis a liberdade. Mesmo com a memória da dor dos ferros dilacerando a carne e do peso dor grilhões, imobilizando meus passos, eu pedi que me prendessem novamente. O ferimento em meu pé esquerdo já estava quase cicatrizado, mas eu fui de encontro à dor novamente, eu pedi por ela, eu pedi ao carrasco que não me deixasse livre.

Diga-me, quem por aqui passar e essa história ler, que significado tem este sonho para você. Eu tenho uma resposta, mas esta é apenas minha e não é definitiva, assim como todas as respostas devem ser .

I hurt myself today
to see if i still feel.
I focus on the pain,
the only thing thats real.

The needle tears a hole;
the old familiar sting,
try to kill it all away,
but I remember everything.


What have I become,
my sweetest friend?
Everyone I know,
goes away in the end

(Johnny Cash - Hurt)

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Bitter silk

Houve um dia em que pensei tê-la visto se aproximando. Um andar macio, parecia vir flutuando. E eu, atônita, paralizada, desacreditando. Todas as dúvidas, por aquele simples momento, se quebrando.
Pois que por mim passou, ignorando. Com os meus desejos, não se importando. É altiva, de costas, vai se afastando. De mim, o lugar que poderia agora estar ocupando. Vago, frio, com o medo brotando.
Já não sei se corro, ou se vou levando. Cada dia mais longo que o anterior, interminando. Seus passos, hoje, ferem, dilacerando. Aquilo que por ingenuidade, de esperança chamei, brincando. Agora parece ter sumido, me deixando.




We all just want to be part of something bigger than ourselves.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Numb

Vozes! Calem-se!
Suplico-lhes que deixem minha sanidade em paz.
Sinto vontade do que não conheço,
Tenho sonhos com o que nunca vivi,
Vou tão longe, mas quando dou por mim,
Ainda estou aqui.
Enjaulada em minha própria masmorra.

Meu cárcere sou eu, é meu peito.
Quem dera fosse pluma,
Quem dera fosse nuvem.
Antes ser água do que ser pedra.
Melhor seria ser rio do que poça, do que poço.

Estou sufocando, as janelas não se abrem.
Há janelas?
Há saída?
Minha vida.
Não estou mais nela.
E o pesadelo de acordar
Dia após dia
À sombra do que pode ser
Me angustia.

Nada me completa,
O vazio, a ausência
Carrego comigo.
Num cambalear
Entre o torpôr e a demência.
Pois deve ser este o marchar da existência.