Do outro lado do oceano, com quase quatro vezes meu tempo de existência, vem ao palco aquele cujas palavras conheço bem, mas a voz nunca tinha ouvido (e nem imaginava um dia fazê-lo). Com passos firmes, mesmo que fracos, caminha até a cadeira e senta-se. Tudo isso foi observado por trás de lágrimas.
Ele falou, e fala como escreve. Ao final, uma fila me aguardava, mas além dela, uma surpresa: o décimo terceiro autógrafo foi meu. Eu olhei dentro de seus olhos quando ele me entregou o livro assinado. Pude balbuciar um obrigada, que não dizia respeito apenas àquele breve movimento da caneta, àquelas duas palavras. Era muito mais do que seu nome em meu livro que eu agradecia. Eram todas as outras palavras, era tudo o que pude viver, sentir e conhecer por suas obras.
Estava satisfeita, mas não totalmente. Em um lado do saguão, sua esposa, seu pilar. E repórteres. Esperei, reuni toda coragem, respirei e levantei-me. Andei até ela, pedi para falar-lhe. Disse que tinha escrito algo que queria entregar a ele. Ela disse-me que entregasse a ela, eu o fiz. Ela me agradeceu (a mim??), abracei-a, disse o prazer que foi conhecê-los, sai.
Uma última olhada para ela, grande espanhola, grande esposa. Ela não o deixou morrer.
Última olhada para ele, ainda dando conta dos 150 autógrafos, grande homem, grande e imortal.
Despedi-me. Fomos embora. Naquela noite, cada minuto foi mais do que pôde tentar prever minha imaginação. Conheci José Saramago.
Devo um agradecimento a mais alguém, o responsável pelo sétimo ingresso e pelo décimo terceiro autógrafo, pela ida e pela reviravolta, pelo inusitado e por tudo o que está por vir.
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