terça-feira, 29 de janeiro de 2008

Não era mais a mesma, mas estava em seu lugar

Nos olhos, uma tempestade de lágrimas
No peito, um terremoto de dores
Na mente, um vendaval de memórias

Por onde posso começar a falar daquela que é meu elo à infância, que me ensinou as letras, os hinos e as contas? Aquela cuja canja e o arroz-doce nunca provei melhores. Aquela de quem o cheiro me lembro e os olhos verdes consigo ver o brilho. E se eles não mais se abrirem? E se de lá ela não mais voltar?

Numa vida tão insegura, tê-la em sua casa era minha certeza. Ultimamente não era mais a mesma, mas estava em seu lugar. Já não mais me reconhece, mas conta-me histórias sobre sua neta. Nos raros momentos de lucidez, sorri-me e me chama pelo velho carinhoso apelido, e, nesses instantes, volto a ter o sabor daquela infância tão simples em que passávamos a tarde brincando de corda, porém volto também a ter o terrível medo de perdê-la. Hoje ele me persegue e assusta-me a cada instante, lembrando-me da possibilidade tão próxima de ela partir.

Não posso parar o tempo, tampouco posso fazê-lo voltar. Resta-me deixar a vida tomar seu inevitável rumo e guardar comigo o tesouro que me chamava de tesouro.

Abandonar a infância não foi fácil, mas despedir-me dela será deveras difícil. Impossível pensar nela sem me lembrar de “Meus Oito Anos” de Casimiro de Abreu... Tomo a liberdade de pegar as palavras do poeta emprestadas: E sim, que saudades eu tenho da aurora da minha vida, da minha infância querida que os anos não trazem mais. Naqueles tempos ditosos, achava o céu sempre lindo, adormecia sorrindo e despertava a cantar. E muito era por sua causa.

domingo, 27 de janeiro de 2008

Alma Minha

No começo, foi a surpresa.

Em seguida, houve a relutância. Não, não era parte de mim, não me pertencia.

Enfim, a redenção. Foi impossível continuar evitando seus olhares, sua pureza.

Toda luta para manter-me distante, indiferente, foi em vão. Seus sorrisos me tocaram, suas mãos me curaram.

Sim, sempre sim para você, anjo. Sou sua, você é meu, é pedaço de mim. Sua vida está tão em minhas mãos que só me resta pegá-lo ao colo e protegê-lo. Não há mais nada meu que eu queira só para mim, é tudo seu, minhas palavras, meu sono, minhas promessas, meus dias, minha lembrança, meu colo.

O meu sol de amanhã é seu. Pois o amanhã é você, e é por você que quero chegar a ver o sol nascer mais um dia.

Uma imensidão numa gargalhada sua, uma lágrima num balbuciar seu, um consolo num abraço seu, sou sua!

Pega-me pela mão e mostra-me um mundo em que a dor e a solidão ainda não foram capazes de ofuscar a luz, essa que sai de seu peito e me ilumina o caminho.

Vamos, juntos, apontando para as árvores dos os mais belos frutos, para os pássaros dos mais belos cantos, as flores dos mais frescos perfumes. Diga-me que isso ainda existe em algum lugar e leve-me até lá.

Deixe-me levá-lo ao colo, protege este coração com suas mãozinhas mornas e faz dele sua morada, nunca deixe-o.

Irmão, meu precioso pedaço do infinito, do inexplicável, do mágico, você entrou em minha vida durante uma madrugada chuvosa, não pude ver quão meu era. A chuva... Corri dela e deixei-o. Ela se foi, hoje já não fujo, fico. Por você.

Seja minha ligação a este mundo, seja meu escape de mim. Salve-me e deixe-me amá-lo.