sexta-feira, 14 de setembro de 2012

No belvedere



É bom parar um pouco durante a caminhada para olhar para trás.

Ao fazer isso, encontrei dores que já não sinto mais, memórias que ficaram tão distantes e que parecem não me dizer mais respeito e músicas que expressavam minha angústia, só que a angústia já se foi.

Houve períodos de muita chuva, caminhos difíceis, buracos tão grandes que pensei que fossem intransponíveis, escuridão e medo.

Não há mais.

De onde estou, olho para tudo aquilo e vejo que, por mais que queira, vou carregar um pedaço de cada um desses sentimentos, mas apenas como uma lembrança que fica guardada para me lembrar daquilo que é bom. Mais do que isso, cada pedra que me feriu me fez mais determinada a querer algo melhor para mim.

A caminhada nunca para, e sei que haverá muitas belas paisagens à frente.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Lugar Comum

Acho que um dos problemas mais graves que enfrentamos hoje é o Lugar Comum.
Sabe aquela coisa de todas as mulheres usarem aquele relógio dourado enooorme para serem chic? Além de terem que usar roupa justa não importa a situação, serem loiras e quererem colocar silicone...
A mania de todas as menininhas de 13 anos que querem ser "rebeldes" (nunca antes mais sem causa!) pintarem os olhos de preto, os meninos usarem o maldito corte de cabelo que aquele feio do Neymar usa, todo mundo ouvir a mesma porcaria de sertanejo universitário, assistir novela e BBB, colar selinho da "família feliz" no carro, ficar com a porra do celular na mão o tempo todo como se fosse um corretor da bolsa de SP, postar a vida toda de forma escancarada no Face (é, porque bacana é falar "Face", não "Facebook"), sabe?
Então, isso é Lugar Comum.
E tenho mais exemplo: mulher que quer mostrar que é descolada e independente tem que sair para o barzinho e ficar do lado de fora fumando com o chopp na mão; homem que quer mostrar que é fortinho usa camiseta polo menor do que deveria para ficar justa no braço (e curta no comprimento) e adolescente que quer ser do contra tem que gostar de Marylin Manson (jura? que grande atitude ele tem...).
Mas não é só aí que eu vejo o lugar comum. Linguagem escrita: quanto mais enfeita, pior fica! Dai aparecem sempre as mesmas expressões: "No mundo globalizado de hoje", "O evento contou com a presença de", "entre em contato através do site", "o diferencial é...". Só existe esse jeito de falar isso?
Sem contar nos relacionamentos: homem tem que reclamar da TPM da mulher, mulher tem que reclamar da desatenção do homem, homem tem que insinuar que pode trair quando quiser, e todo mundo tem que dizer que "casamento é uma porcaria", mas todo mundo quer se casar!
E mais, a vida, no Lugar Comum, só tem uma direção: a pessoa nasce, cresce, casa-se e tem filhos, dai reclama que se casou muito cedo, que casamento é uma m**** e que não queria ter tido filhos. Sempre assim! Vai escolher outro caminho para você ver a chateação que o espera!
Quer mais? Fala para alguém que você não acredita em Deus ou que não tem religião! No Lugar Comum, essas são diretrizes que não se questionam.
Lugar Comum, para mim, é sinônimo de preguiça de pensar. É mais fácil engolir o que já vem pronto do que procurar algo novo. E delicado é quem se diz "revolucionário" e quer sair do Lugar Comum apenas para chocar. Desculpe, mas para esses, o Lugar Comum só mudou de endereço. Viu, Lady Gaga?
Cadê a inspiração para o novo? Há algo de novo a ser criado ainda? Ou estamos tão saturados de informações que já não há mais o que inventar?
Na moda, é realmente complicado alguém conseguir fazer algo novo quando há trocentos estilistas e maisons e trocentas semanas da moda por ano. O mesmo serve para o cinema, para a música e outros tipos de arte. Não há imaginação que aguente a arte sendo tratada com a mesma fulgaridade que a internet.
Agora, aguentar o rebanho seguindo cegamente todas as "tendências" de moda e de comportamento que se espalham por ai sem nem refletir sobre como é rídiculo ser igual a todo mundo é de causar náusea.
Lição de casa: sair do Lugar Comum - exercício para o cérebro e para o caráter!

quarta-feira, 25 de abril de 2012

O Gostar

O gostar vem e toma diferentes formas.
Às vezes, ele se torna amizada e nos faz apreciar uma companhia, nos sentindo à vontade para falarmos sobre nós.
Em alguns casos, ele se vai tão rápido quanto veio e desaparece sem deixar rastro.
Há casos em que se tranforma em decepção, ferida doída na alma.
Mas, no melhor dos casos, ele vai se aprofundando no coração, criando raiz, vai encorpando, e é bonito de se ver.
O gostar tem camadas e, quando tem raiz mais funda, vai mudando de nome, vira bem-querer, adorar, amar.
Cada camada dele tem gosto bom de conquista, de novidade, e nos mostra algo de novo no objeto gostante, como se estivéssemos enxergando mais fundo. E também nos mostra mais sobre nós mesmos, os sujeitos gostadores, como se descobríssemos mais sobre nosso próprio coração, sobre sua força e seu tamanho.
Esse gostar se renova, se reinventa e vive em nós por conta própria. Se nos esquecemos de olhar por ele, ele vai embora e nem avisa. Triste deve ser achar que ele está lá, mas estar olhando para a sua sombra.
Vai esforço e atenção, mas é tão bom tê-lo enchendo os dias de perfume e música. Cuida dele, que ele cuida de você.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

C'est la vie 2


Arte está em todo o lugar, pode ser qualquer coisa.
Arte é sobreviver sem deixar seu coração se tornar uma pedra.
É o céu perfeito coberto de estrelas, que nos faz lembrar que ainda há uma chance.
É a música que diz tudo o que você está sentindo e o leva às lágrimas.
É o filme que o faz pensar na vida e se confortar por saber que mais alguém sente o mesmo que você.
É o vento que toca seu corpo e causa a sensação de um abraço.
É o espelho que mostra uma pessoa diferente cada vez que você se olha nele.
É o livro que muda sua vida e o ajuda a entender o ser humano.
É a criança que sorri quando olha para você e o faz acreditar que vale a pena viver mais um dia.
É o chocolate que adoça sua boca, mas o faz ter vontade de um beijo.
É o calendário que corre mais rápido do que você consegue arrancar as folhas dos dias.
É cada pequena coisa que diz que viver é uma arte e sobreviver é a maior obra prima que uma pessoa consegue criar.

terça-feira, 27 de março de 2012

A beleza gratuita

A chuva está chegando. Para anunciá-la, vem o vento e vêm as nuvens escuras.
Já chega o cheiro, indício de que, em algum lugar, ela já cai.
Agora, chegam os primeiros pingos. O vento está mais fresco.
Queria poder desligar esse barulho todo que o mundo faz para poder ouvi-la cair.
Queria poder parar tudo e ir lá fora sentir sua temperatura, não me importar com me molhar, me atrasar, me estranharem.

A vida é bem esquisita. Trabalhamos pelo menos 8 horas por dia, 5 dias por semana, para conquistarmos o direito de não fazer isso por 2 dias. E mais, para conquistarmos o famigerado dinheiro.

E passam-se as horas, passa-se o dia, vem a noite e a chance de fazermos aquilo de que realmente gostamos. Porém, deve-se dormir, pois cedo precisamos reiniciar a repetição diária.

Se não há sentido na vida fora da repetição, ela perde seu sentido. O que somos quando não estamos brincado de funcionários-zumbis? Quem somos de verdade? De que gostamos? Onde queremos chegar com nossa batalha diária? 

Se não soubermos responder a isso, não sairemos do lugar de escravo da rotina nunca. Ela por si só não é o sentido, ela é a ferramenta, aquilo de que precisamos para que o sentido seja mais real e para que os sonhos sejam possíveis (porque, infelizmente, eles foram monetarizados).

Se não nos atentarmos para as pequenas coisas do mundo, como a chuva caindo, a rotina nos engole e não conseguimos mais sair dela e das talas que ela nos impõe.

Então, por que não parar, nem que seja por dois minutos, e ir até a janela ver a chuva? Permita-se olhar além do mundo maquinal feito de cimento e ferro e sinta o mundo das sutilezas, das belezas esquecidas.

A chuva está caindo...

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

O tempo das coisas

Como tem de ser sempre, lá vem o vento das mudanças soprar e virar mais uma página.

Coisas incomodam como um espinho por algum tempo, algumas por tempo demais, a ponto de até se acostumar com o incômodo.

Para que carregar esses pesos? Desnecessário viver assim. Não é para isso que vim.

Vim para carregar coisa boa. O que não é bom, vou deixar para trás.

Mas o que é bom, quero bem perto.

Tem hora que parece que a vida corre na nossa frente e temos de dar uns passos mais largos do que planejávamos. É bom, alonga.

Tem hora que ela nos surpreende com uma nova vida a caminho. Titia, eu, quem diria?!

Tem hora que a surpresa é com outra vida no nosso caminho. E que surpresa boa!

Página nova, branquinha, pronta para aceitar a história que eu escolher colocar lá.

Aquilo de ruim pelo que passamos deixa marca, mas o gostoso é saber que a marca é só o lembrete de que não há mal que sempre dure. É a recordação de que sobrevivemos e ainda temos inúmeras páginas novas para mudar o rumo das coisas e tentar escrever nossa história do jeito que nos agradar.

E tem mais, nada é só ruim. Enxergar além e conseguir achar aquilo de bom que veio junto com um problema é um bom exercício. Faz com que nos sintamos mais otimistas, mais esperançosos, nos faz sentir que qualquer sofrimento ou dor nunca é em vão.

Para completar, página em branco nos dá o mundo para sonhar. Enche a alma de planos. Faz até perder o sono imaginando que gosto terão, quando se concretizarem. Dá vontade de acelerar o tempo para vê-los logo.

Mas o caminhar tem a velocidade da mão escrevendo... o jeito é esperar o tempo das coisas.

E o tempo das coisas é diferente do tempo do coração, mas tempo é tão subjetivo...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Aprendendo com o grande

Outro dia, resolvi ler sobre Charles Chaplin, para saber um pouco sobre a vida tão frutífera dessa importante figura.

Uma das melhores cenas é a cena final de "O Grande Ditador",
e lá está um dos melhores discursos, sensível, profundo e sincero: o discurso de Chaplin, que expõe toda sua indignação por tudo o que acontecia naquele momento no mundo (o filme foi lançado em 1940). E ainda acontece...

Aqui divido o vídeo e a minha tradução do discurso.







Desculpem-me, mas não quero ser Imperador, esse não é meu trabalho. Eu não quero controlar ou dominar ninguém. Eu gostaria de ajudar a todos, se possível, judeus, gentios, negros e brancos. Todos nós queremos ajudar uns aos outros, os seres humanos são assim. Todos queremos viver pela felicidade do outro, não pelo sofrimento do outro. Não queremos nos odiar nem desprezar. Neste mundo, há espaço para todos e a terra é rica e pode suprir a necessidade de todos.

Nosso jeito de viver pode ser livre e belo. Mas perdemos o jeito.

A ganância envenenou a alma dos homens, criou barreiras no mundo feitas de ódio; nos fez marchar em direção ao sofrimento e à matança.

Nós desenvolvemos a velocidade, mas nos trancamos em nós mesmos:
as máquinas que nos oferecem abundância nos deixaram carentes.
Nosso conhecimento nos fez cínicos,
nossa esperteza, duros e rudes.
Pensamos muito e sentimos muito pouco:
Mais do que maquinário, precisamos de benevolência;
Mais do que esperteza, precisamos de bondade e gentileza.

Sem essas qualidades, a vida pode ser violenta e tudo estará perdido.

O avião e o rádio nos uniram. A pura natureza dessas invenções suplica pela bondade dos homens, suplica pela fraternidade universal, pela união de todos nós. Agora mesmo, minha voz está chegando a milhões de pessoas no mundo todo, milhões de homens, mulheres e crianças desesperados, vítimas de um sistema que faz os homens torturar e prender pessoas inocentes. Aos que podem me ouvir, eu digo “Não se desesperem”.

O sofrimento que nos cerca agora não é nada mais que a passagem da ganância, da amargura dos homens que temem o caminho do progresso humano: o ódio dos homens passará e ditadores morrerão, e o poder que eles tomaram das pessoas retornará a elas, e enquanto os homens morrerem [agora], a liberdade nunca findará...

Soldados: não se entreguem aos brutos, homens que os desprezam e os escravizam, que arregimentam suas vidas, os dizem o que fazer, o que pensar e o que sentir, que os treinam, os alimentam e os tratam como gado, como bucha de canhão.

Não se entreguem a esses homens que não são naturais, homens-máquinas, com mentes de máquinas e corações de máquinas. Vocês não são máquinas. Vocês não são gado. Vocês são homens. Vocês têm o amor da humanidade em seus corações. Vocês não odeiam, apenas os que não são amados odeiam. Apenas os que não são amados e não são naturais. Soldados: não lutem pela escravidão, lutem pela liberdade.

No capítulo dezessete de São Lucas, está escrito:
“O reino de Deus está dentro do homem”
Não de um homem, nem de um grupo de homens, mas de todos os homens; de vocês, o povo.

Vocês têm o poder, o poder de criar máquinas, o poder de criar felicidade. Vocês têm o poder de fazer a vida ser livre e bela, de fazer desta vida uma maravilhosa aventura. Então, em nome da democracia, usemos este poder, unamo-nos. Lutemos por um novo mundo, um mundo decente que dará aos homens a chance de trabalhar, que dará a vocês o futuro, a velhice e a segurança. Com a promessa dessas coisas, os brutos chegaram ao poder, mas eles mentem. Eles não cumprem suas promessas, eles nunca as cumprem. Ditadores se libertam, mas escravizam o povo. Lutemos agora para cumprir essa promessa. Lutemos para libertar o mundo, para acabar com as barreiras entre nações, com a ganância, o ódio e a intolerância. Lutemos por um mundo com razão, um mundo em que a ciência e o progresso levarão todos os homens à felicidade.

Soldados! Em nome da democracia, unamo-nos!

...

Hannah, você está me ouvindo? Onde quer que esteja, olhe para o céu, Hannah! As nuvens estão se abrindo e o sol está surgindo. Estamos saindo da escuridão e indo para a luz. Estamos chegando a um mundo novo. Um mundo novo e bom em que os homens estarão acima de seu ódio, sua ganância e sua brutalidade.

Olhe para o céu, Hannah. À alma do homem foram dadas asas, e finalmente ele começa a voar. Ele está voando para o arco-íris, para a luz da esperança, para o futuro, o futuro glorioso que pertence a você, a mim e a todos nós. Olhe para o céu, Hannah! Olhe para o céu!