A chuva está chegando. Para anunciá-la, vem o vento e vêm as nuvens escuras.
Já chega o cheiro, indício de que, em algum lugar, ela já cai.
Agora, chegam os primeiros pingos. O vento está mais fresco.
Queria poder desligar esse barulho todo que o mundo faz para poder ouvi-la cair.
Queria poder parar tudo e ir lá fora sentir sua temperatura, não me importar com me molhar, me atrasar, me estranharem.
A vida é bem esquisita. Trabalhamos pelo menos 8 horas por dia, 5 dias por semana, para conquistarmos o direito de não fazer isso por 2 dias. E mais, para conquistarmos o famigerado dinheiro.
E passam-se as horas, passa-se o dia, vem a noite e a chance de fazermos aquilo de que realmente gostamos. Porém, deve-se dormir, pois cedo precisamos reiniciar a repetição diária.
Se não há sentido na vida fora da repetição, ela perde seu sentido. O que somos quando não estamos brincado de funcionários-zumbis? Quem somos de verdade? De que gostamos? Onde queremos chegar com nossa batalha diária?
Se não soubermos responder a isso, não sairemos do lugar de escravo da rotina nunca. Ela por si só não é o sentido, ela é a ferramenta, aquilo de que precisamos para que o sentido seja mais real e para que os sonhos sejam possíveis (porque, infelizmente, eles foram monetarizados).
Se não nos atentarmos para as pequenas coisas do mundo, como a chuva caindo, a rotina nos engole e não conseguimos mais sair dela e das talas que ela nos impõe.
Então, por que não parar, nem que seja por dois minutos, e ir até a janela ver a chuva? Permita-se olhar além do mundo maquinal feito de cimento e ferro e sinta o mundo das sutilezas, das belezas esquecidas.