Quando nasci, uma dose de tristeza passou para mim de minha mãe.
Como
o que mãe fala, de forma instintiva, tem muita força, por anos vi o
mundo como ela o via. Assim como a mamãe leoa ensina seus fillhotes a
caçar e a se defender, e eles acatam tudo o que ela diz, eu também me
peguei acatando a tristeza herdada.
Enquanto
estávamos sempre juntas, a tristeza era compartilhada e aquilo até nos
unia mais. Só que o tempo foi passando, fui aprendendo a encontrar o meu
ponto de vista sobre a vida e suas adversidades e descobri que não
nasci para ser triste. Não nasci para carregar mágoa, para me sentir uma
vítima da situação.
E
mais, descobri em mim uma vontade muito grande de ser sempre mais,
maior, melhor e mais feliz. Isso, sabia que só dependeria de mim.
Foi
daí que comecei a ver algo de constantemente triste nela, uma coleção
de mágoas que ela carrega para onde for, um jeito pesado de viver.
Em
um certo momento, nos afastamos fisicamente e a relação começou a ter
problemas. Uma nova família havia se formado onde antes era a minha. Eu
não fazia parte dela. Ao mesmo tempo, minha vida me chamava para outro
lugar, para aqueles planos de crescimento.
E
um abismo foi lentamente se formando, como aqueles caminhos profundos
que a água faz nas pedras por onde passa um rio. Só que o rio não para,
ele não pode parar para evitar que as pedras se desgastem. Elas apenas
se moldam a ele, pois antes se moldar e o rio continuar do que torcer
para o rio secar. Essa é a toada natural.
Mas
mudanças nunca foram bem vistas, ainda mais quando envolviam uma antiga
mágoa. E o que era para ser natural, se tornou cada vez mais dolorido.
Pouco a pouco, conforme a vida ia passando, o abismo ia aumentado e
minha voz já não consegue chegar do outro lado. Já não sei o que falar,
ela já não sabe me ouvir. Hoje, ela já não me conhece mais, não sabe de
mim nada além do trivial que pode ser contado ao telefone em espaçadas
ligações por educação.
O
vazio de não conseguir cruzar esse abismo e essa distância toda me
fazem por vezes esquecer por que quero tanto falar com a pessoa do outro
lado. Há momentos em que simplesmente nem o quero mais, quero apagar
essa pessoa para ver se para de doer. Mas não para. E não sei como lidar
com isso. Não sei o que fazer com esse espinho que se alojou na alma.
Por
isso, vou escrever. Até ver se desato esse nó e consigo achar uma forma
de encarar um fato consumado de outra forma. Preciso descobrir se ela
sempre foi assim para poder me livrar de esperar algo diferente, pois
pode ser que esse algo diferente nunca tenha existido e nunca haverá.
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