Há pessoas que em momentos inesperados têm epifanias. Algumas, ao ver um cego mascando chicletes, outras, como eu, durante um sonho. Tive um sonho terrível noite passada, havia voltado à terrível Idade Média e presenciava um homem sendo enjaulado e torturado, havia ferros cravados em sua pele e ele gritava, urrava de dor. Isso acontecia, estranhamente, na sala da casa de meu pai e, enquanto minha irmã assitia à televisão, eu observava aquele homem e seu carrasco.
O homem tinha uma jaula montada em si mesmo, as grades lhe prendiam os membros por ganchos, espinhos, agulhas e pregos, havia muito sangue. Houve um momento em que ele caiu. Alucinado e já não suportando a dor, perdeu o senso. Tentava, com os dentes, arrancar os espinhos de dentro da carne, arrastava-se pelo chão gritando que não aguentava mais.
Eu, neste momento, pulei por cima dele, que bloqueava o caminho, e precisei me afastar de toda aquela dor. Comecei a descer as escadas e, quando olhei para meus pés pisando os degraus, notei que eu também tinha uma jaula em mim, mas que, ao pular o homem, o prego de meu pé esquerdo havia saído. Eu estava quase livre.
Minha ação seguinte foi a que me levou à epifania, tamanho absurdo.
Então eu descia a escada, no final dela havia um carrasco, não vi seu rosto. Minha reação foi talvez guiada pelo medo, foi o único momento ao longo do sonho em que senti medo. Eu chamei o carrasco e avisei-o, disse que meus pés estavam soltos. Eu não quis a liberdade. Mesmo com a memória da dor dos ferros dilacerando a carne e do peso dor grilhões, imobilizando meus passos, eu pedi que me prendessem novamente. O ferimento em meu pé esquerdo já estava quase cicatrizado, mas eu fui de encontro à dor novamente, eu pedi por ela, eu pedi ao carrasco que não me deixasse livre.
Diga-me, quem por aqui passar e essa história ler, que significado tem este sonho para você. Eu tenho uma resposta, mas esta é apenas minha e não é definitiva, assim como todas as respostas devem ser .
I hurt myself today
to see if i still feel.
I focus on the pain,
the only thing thats real.
The needle tears a hole;
the old familiar sting,
try to kill it all away,
but I remember everything.
What have I become,
my sweetest friend?
Everyone I know,
goes away in the end
(Johnny Cash - Hurt)
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